Carta a um(a) caloiro(a) em ascensão social

Parabéns, jovem ascensor social! Sim, falo para ti, jovem que entra este ano no ensino superior e cujos pais tem o nível de ensino mediano para a geração deles (que deve ser bem abaixo do terceiro ciclo, de acordo com a taxa real de escolarização, não?). Estou orgulhosa de ti. Mas, se as coisas ainda estiverem como na minha altura, deixa-me ir fazendo uns avisos. 

Muita gente não vai ser como tu. Não vieram de escolas públicas como a tua, nem têm contacto regular com pessoas como tu. Tu és um conceito social vago para estas pessoas, que assume vários nomes: “os menos diferenciados”, “aqueles de classe baixa”, “os mais necessitados”. Menos vezes vão usar o termo “menos privilegiados”, que provavelmente descreve melhor o que se passou com a tua família nas gerações anteriores.

Se tiveres um sotaque regional, rural ou de subúrbio, podem confundir isso com menor inteligência ou até rudeza. Eles foram treinados a associar o teu sotaque, volume de voz e gestos a uma cultura inferior. Lembra-te que eles estão errados. Não há nada de menor na tua cultura. Aliás, partilha-a para eles se irem habituando.

As universidades podem não estar preparadas para alguém com o teu poder económico, se este for escasso. Existem as bolsas de apoio social, que são fundamentais. Quando funcionam, são do melhor! No entanto, vi o sistema social falhar demasiadas vezes. E as universidades podem exigir grande investimento financeiro em equipamentos ou deslocações para as quais não tens poder económico. Ter um emprego em part-time ou no Verão pode ser uma maneira de equilibrar as contas (foi essa a minha estratégia). Mas sim, estamos a caminho de mais uma crise económica e estes empregos não devem abundar. Se a tua universidade tiver um Fundo de Acção Social pode ser que encontres algo que te permita prolongar a estadia no ensino superior, ou que te possa pôr em contacto com as instituições que localmente apoiam estudantes na tua situação.

Períodos de estudo fora do país podem mesmo ser uma impossibilidade para ti, o que é pena pois são valorizados no mercado de trabalho. Se sobrar dinheiro do emprego em part-time, pode ser que tenhas essa oportunidade. Mas pode ser que a tua família precise desse dinheiro extra para a crise que se aproxima.

O mundo não é justo, como já deves saber.

Os próximos anos serão mais difíceis para ti do que para os colegas de maior privilégio. Quando chegares ao mercado de trabalho, será igual. Não te quero criar a ilusão. Já notaste na quantidade de políticos, professores universitários, jornalistas, CEO e pessoas na televisão que têm familiares listados na Wikipédia?

As universidades podem não estar preparadas para alguém com o teu poder económico, se este for escasso. Existem as bolsas de apoio social, que são fundamentais. Quando funcionam, são do melhor! No entanto, vi o sistema social falhar demasiadas vezes.

Mas talvez se te unires a pessoas com similar consciência das desigualdades de oportunidade na nossa sociedade, pessoas curiosas pela tua diferença, pode ser que o processo seja mais enriquecedor para todos. Pode ser que haja uma real interacção entre os vários níveis económicos no nosso país, finalmente. E interagir contigo vai dar oportunidade às pessoas mais privilegiadas de mostrarem a sua worldliness, dizendo que: até têm conhecidos de “classe menos diferenciada”. Se não fores branco já deves estar habituado a ouvir uma versão desta frase aplicada a ti.

Acima de tudo, não desistas. A sociedade precisa que ascendas e a mudes.

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